Há um grande interesse entre as pessoas que gostam de misticismo e esoterismos pelos deuses egípcios, no entanto, apesar de muitos sites na internet falarem sem o menor pudor sobre as “sacerdotisas” do deus tal e o culto do deus tal, nossas fontes são extremamente escassas a esse respeito. Antes de começar a falar de alguns deuses por aqui, gostaria de falar um pouquinho sobre as fontes, ou seja, sobre onde os egiptólogos encontram as informações que saem nos documentários e livros (decentes) do gênero.

            Os suportes (locais onde podemos encontrar infomações tanto escritas quanto imagéticas) são diversos, desde os papiros (mais raros, pois a umidade ou o ressecamento são adversários terríveis com o passar do tempo), até os óstracos (pedaços de barro, pedra, argila e etc que eram usados como rascunhos) e paredes (no Egito em especial nos templos e nas tumbas sejam elas pirâmides, mastabas ou tumbas subterrâneas). Na antiguidade também se usava como suporte para divulgar informação a estatuária que, no Egito em especial, devido à sua linguagem iconográfica, poderia transforma-se também em texto (para quem conseguisse decodificá-lo). Cabe ressaltar que no Egito apenas as moradas da eternidade (as tumbas) e os templos (estes mais a frente na História egípcia) eram feitos de pedra. Todos os outros, desde a moradia mais antiga até o palácio real eram feitos de tijolos de barro, ou seja, muito da vida cotidiana e também politico-administrativa não chegou até nós. É por isso que a imagem dos egípcios para o ocidental mediano contemporâneo é a de que esta era uma civilização que só pensava na morte ou, como Pierre Montet brinca: “Os modernos têm tendência a acreditar que os egípcios nasciam envoltos em bandagens” (MONTET, Pierre. O Egito no Tempo de Ramsés, pp. 9); no entanto “nada mais falso” como diz Emanuel Araújo. Os egípcios, amavam muito a vida, gostavam muito das “dádivas do Nilo” como disse Heródoto e queriam levar isso para a eternidade. Portanto, sabemos com certeza muito mais sobre a visão da morte e do que acontecia antes, durante e depois da mesma do que o dia-a-dia ou a política e economia egípcia, mas estas informações nos chegam de modo indireto e de modo muito mais complicado de se trabalhar como a arqueologia, mas, mesmo esta ferramenta não pode nos fornecer algumas informações que apenas poderíamos saber se um egípcio tivesse escrito.

Outras informações, como os escritos de estrangeiros que visitaram o Egito também são muito complicados, pois o mais antigo, Heródoto, já visitava o Egito em seu “final” de período faraônico, já governados há séculos por uma dinastia persa. Pense só, Heródoto escreveu por volta do século V a.C. (500 a.C.) e o nosso Egito “nasce” por volta de 3100 a.C.!!! São mais de 2500 anos de História sem escritos de estrangeiros e, muito do que ele viu já tinha mudado várias vezes pela História egípcia!!!

            E chegamos ao que nos interessa. Tenha muito cuidado ao ler sobre o culto de um deus egípcio na internet. Temos sim, alguns dados sobre as características dos deuses, de suas áreas de atuação e até do local principal de seu culto e as informações acabam por aí!! Sabemos de forma geral (principalmente devido à capela de Seti I em Abydos) sobre o culto diário, mas não sabemos com exatidão como eram feitos os rituais mais específicos de cada deus. Não há documentos que registrem isso. Porque? Por que a religião egípcia, como praticamente todas da antiguidade, era uma religião de mistérios, ou seja, apenas o iniciado poderia ter acesso e saber dos ritos e até mesmo entrar nas partes cobertas do templo. Portanto, muito do que acontecia no templo era vedado à população. Muitas informações que ficam hoje em exposição para todos os turistas verem eram um privilégio de muitos poucos no Egito faraônico.

            Então vocês me perguntam: mas então, como a população poderia ter a mesma religião que os iniciados se eles não sabiam de tudo? Bem, temos poucas informações da população por motivos óbvios: eles não sabiam escrever e, os poucos que tinham algum conhecimento (artesão de tumbas ou escribas de aldeia) deixaram sua marca em algumas pixações em templos ou escreveram em suportes que não conseguiram chegar até nós como madeira (sabemos disso porque alguns poucos conseguiram vencer o tempo e as intempéries). Através dessas poucas informações, sabemos que eles tinham algum conhecimento que era geral para todos os egípcios, mas que eles também modificaram algumas coisas nas aldeias. Além disso, temos registros de diversos festivais que aconteciam durante o ano promovidos pelos templos e pelo faraó que divulgavam anualmente os mitos e histórias dos deuses o que tornava possível a maior ligação das crenças populares com o culto dos templos.

            Portanto, sempre que falarmos de deuses aqui gostaria que prestassem atenção nestas informações. As pessoas gostam de inventar em cima de alguns poucos conhecimentos científicos que elas encontram. Pretendo falar com mais calma do culto diário e dos festivais, mas lembrem-se: se até a maior parte da população naquela época não tinha algumas informações, de onde estas pessoas contemporâneas tiraram essas idéias? Questionem! Questionem sempre! Devemos sempre separar a crença (aí a pessoa pode inventar o que ela quiser, é algo pessoal) da História que, na antiguidade ainda mais, tem suas limitações e problemas de pesquisa. Espero ter ajudado e peço desculpa pelo sumiço, juro que vou tentar atualizar mais vezes!! Comentem para que eu tenha algum estímulo!! Hehehe!!

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